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"Volta, Parmera. Os domingos te esperam"

Menon

24/08/2013 19h39

Realismo mágico e os dias de Palmeiras na Série B

O texto é de Rafael Evangelista, (@r_evangelista), jornalista, antropólogo, pesquisador da Unicamp e parmerense desde que nasceu. Juntamente com Tiago Soares (@elgroucho) edita O Plano B (www.oplanob.com) onde fala de tecnologia e internet.

 

 

"E eu?", foi o SMS de resposta que recebi no último sábado, após dizer que ia ver o jogo no bar de sempre. Neste semestre ela está estudando nesse dia da semana, o que facilita a vida – naquele sábado ela sairia mais cedo e estava cansada, porque normalmente me acompanha. Mas não é todo palmeirense que tem essa sorte. A série B não é só um intervalo, um recesso, um rolê, é uma experiência na marginalidade, no circuito alternativo (e nos dias alternativos). É acompanhar o futebol como se fosse um filme, em que até rola aquela catarse e você se vê na pelo do outro, lutando contra o vilão. Você se identifica e seca, mas não está lá, não dá aquele soco no vilão ganancioso, não bota os empresários inescrupulosos na cadeia. Encontrar o verde em Luverdense não é o mesmo que gritar "deeeeefendeu, Marcos!".

Tá certo que nos últimos anos, com a Globo comandando o calendário do futebol, a experiência de todo não-corinthiano-flamenguista tem sido meio marginal, quase nunca ocupando a nobre 16h de domingo. Mas terça-feira é todo um outro nível de gentrificação, um desarranjo completo nos necessários dias de recuperação do futebol com cerveja do final de semana. Eu prefiro nem falar sobre a tragédia que são as sextas porque, por mais que seja uma ótima oportunidade de abertura para o final de semana, a cabeça de ninguém está naquilo. Agora tente ir no estádio e se mover em São Paulo num momento em que simplesmente está todo mundo tentando sair de lá.

Como não pago a fortuna do pay-per-view e ando meio cansado do piratanet (abraço, esportes.us), meu refúgio tem sido um buteco de palmeirenses, nosso mini Palestra Itália em Campinas. Recomendo o pernil, a sardinha frita e o total clima de estádio do lugar, com direito a coro contra o juiz e "chuta, chuta" pras televisões.

E tá aí outra dor e delícia da série B – já preparo os amigos tricolores – o insólito de toda rodada.

O clima no buteco tem estado ótimo, bar cheio e feliz, também porque os últimos jogos foram só alegria, várias vitórias de virada. Só que é sempre aquela sensação de irrealidade, não basta a data esquisita dos jogos, sempre rola uma pulga atrás da orelha quanto à qualidade dos adversários.

Começa o jogo, o time toma um gol e dá aquela sensação de que a boa fase é só um tipo de falha coerente na matriz que te faz duvidar de tudo: o dia é errado, essa não é nossa divisão de verdade, aquilo nem é um estádio e a iminente derrota mostra que esse não é um time a altura de nossas tradições. Mas logo o Palmeiras vira e tudo volta ao normal-bizarro, o bar vira estádio, vou pressionar o juiz xingando, o Palmeiras é o time da virada, o Luís Felipe é o novo Arce… Tá, exagerei, mas boto maior fé nesse lateral-direito novo.

Mas nem tudo é realismo mágico, ou pelo menos ele não funciona sempre. Não rolou contra o Boa, por exemplo.

Kleina resolveu poupar meio time e os reservas que estavam tendo sua chance resolveram investir na feijoada e se poupar também. Egurem começou como titular, o que liberou Márcio Araújo para sua real posição. Na zaga, Vilson, que vem jogando melhor que Henrique, também foi poupado. O resultado foi que tomamos um gol logo no início, o Boa retrancou no melhor estilo série B e o primeiro tempo foi horrível. Lógico que o gol que tomamos foi de um jogador com nome bizarro: Caranga. Time completamente desconjuntado, acredito mais que pela falta de entrosamento entre as peças do que qualquer outra coisa. No papel, eu até estava acreditando.

No segundo tempo, Egurem, que tomou um amarelo de jogador carniceiro, foi pro banco e Araújo voltou a ser primeiro volante. Entrou Mendieta e voltamos a ter dois meias de ligação.

O time melhorou e foi pressionando, quase empatando no final. Só que quase não vale gol e a invencibilidade longa caiu. A propósito, o Luís Felipe parece ter subido no salto e não jogou nada. Por isso tudo que cada ponto a mais, cada rodada que vai passando, é um pouquinho mais de alívio para o palmeirense. Quando o time vence a gente consegue exercer o bom humor, fazer troça de si mesmo, brincar com a situação. Mas quando perde para um time intinerante, com nome-trocadilho, a paciência acaba, mesmo com todos os poréns sobre o time reserva e a "boa" fase.

Volta, parmera! Aos domingos de futebol que te pertencem!

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar.Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

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