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Vem aí grande livro. Sócrates não é santo. Ricardo Teixeira não é demônio

Menon

17/03/2014 15h11

Leonardo Mendes Jr e Jones Rossi, dois ótimos jornalistas, resolveram cutucar a onça com vara curta. Escreveram "Guia politicamente incorreto do futebol brasileiro", que dá um enfoque diferente a algumas verdade absolutas do futebol. O livro será vendido a partir de 15 de abril.

Conversei com o Leonardo, um dos autores do livro.

Quais são as verdades estabelecidas que vocês contestam?

O Barcelona é o coitadinho oprimido pelo Real? Mostramos que o clube cresceu no franquismo e, depois do regime, virou um joguete político catalão. A seleção de 94 é maldita? A gente mostra que a seleção do Parreira jogava exatamente como a Espanha que a imprensa adora exaltar. O Zagallo era um distribuidor de camisa em 70? A gente mostra que ele criou o modelo que o Guardiola implementou no Barcelona do Messi. A democracia corintiana foi um movimento de vanguarda? A gente mostra que era uma bela ditadura. E por aí vai.

Qual é o estilo do livro?

Em alguns guiaincorretotópicos a gente é um pouco ranzinza, em outros irônico e sempre que possível provocativo. O objetivo é mostrar que os lugares-comuns se repetem de tal jeito no futebol que basta repeti-los que qualquer um vira craque no assunto. E, claro, combater esses lugares-comuns, mostrar que algumas coisas não são exatamente como a gente sempre acreditou que fosse.

Sócrates, então era um ditador?

Sim, quem não concordava com a Democracia Corintiana, era chutado. Isso é ditadura. Quem não é capaz de conviver com diferenças, é ditador.

Ricardo Teixeira salvou o futebol brasileiro?

Em busca de poder político, ele criou duas competições que foram ótimas para o futebol brasileiro. Em 1989, para pagar os votos que teve em sua eleição, deu uma máquina de fax para cada federação e criou uma competição em que clubes pequenos poderiam enfrentar os grandes do futebol brasileiro. É um sucesso. Depois, para atender a pressão da Globo, criou um campeonato brasileiro longo, de pontos corridos, que manteve uma estabilidade por 11 anos.

Então, Sócrates era um ditador e Ricardo Teixeira um salvador?

Não é bem assim. Começamos o capítulo da Democracia Corintiana mostrando que foi um movimento importante, válido e que mudou muita coisa nas relações do futebol brasileiro. Mas questionamos a dinâmica interna, que não era democrática. Quanto ao Ricardo Teixeira, não escondemos e nem sublimamos todas as bandidagens que ele fez. Não estamos dizendo que Ricardo Teixeira era um santo e que Sócrates era um demônio. Seria estúpido. Mas dizemos que Sócraters não era tão santo assim e que Ricardo Teixeira não era tão demônio assim.

Vocês questionam certas verdades absolutas ou tentam criar outras verdades?

Depende do capítulo. Em relação à Copa de 82, por exemplo, relativizamos aquela maravilha toda que é repetida e cristalizada a cada dia. Mostramos que o time teve erros na montagem e problemas com dinheiro também. Em outros capítulos, vamos mais fundo. É uma bobagem não reconhecer o valor de Zagallo e de Parreira. A seleção de 94, por exemplo, tem o mesmo estilo – e em alguns aspectos é superior –   à seleção espanhola. E que a seleção de 70 tem muito da do Barcelona de Messi.

ABAIXO, UM PEQUENO EXTRATO DO CAPÍTULO SOBRE A DEMOCRACIA CORINTIANA

Mas o que era a Democracia Corintiana, afinal? Por que ela mobilizou jogadores, jornalistas e até publicitários, que a defendiam de modo tão ferrenho? A princípio, a Democracia Corintiana era o direito de os jogadores votarem qualquer questão que fosse de seu interesse direto. Segundo Sócrates: "Qualquer um podia

apresentar um assunto para votação. Quando viajar? A que horas viajar? Onde concentrar? Tudo era discutido. Nós nos reuníamos no vestiário ou no campo e decidíamos.

A partir de então, nós começamos a exercer isso semanalmente. Falávamos sempre sobre uma série de coisas, inclusive horário de treino. Discutir e votar eram quase um vício".

 

O movimento pregava, entre outras coisas, a abolição da concentração para os jogadores casados, o direito de fumar e de tomar bebidas alcoólicas em público, a liberdade de expressar opiniões políticas e a prática de tomar em conjunto as decisões referentes ao time, envolvendo atletas, funcionários e dirigentes por meio de votos com pesos iguais.

Mas não era só isso que se submetia à votação. Com a palavra, Sócrates: Tudo o que dizia respeito ao grupo ia a voto. Se fosse colocado na mesa "tal companheiro deve ou não sair do grupo?", a gente votava. Tudo era votado sem nenhuma máscara. Se fosse determinada a saída de alguém, a pessoa sairia. A diretoria cuidaria

dos detalhes burocráticos da transferência. Isso também acontecia com as contratações. Para contratar um jogador novo, a diretoria geralmente apresentava uma lista com três nomes e nós escolhíamos.

Opa! Decidir onde se concentrar é uma coisa. Decidir a saída de um companheiro de time é algo totalmente diferente. Trata-se de uma atitude que suscita uma série de questionamentos éticos. (….) A democracia estava implicitamente sujeita ao primeiro mandamento da revolução dos bichos, do romance de Orwell: todos os animais são iguais. Mas alguns animais são mais iguais do que outros.

 

A Democracia perseguia quem discordava dela Com a eliminação precoce no Paulista de 1981, o   Corinthians foi disputar o Troféu Feira de Hidalgo, na cidade de Pachuca, no México. O time ficou com o título e disputou mais partidas na Guatemala e em Curaçao. O lado negro da Democracia Corintiana começava a entrar

em ação. O elenco decidiu que alguns jogadores deveriam deixar a equipe. Wladimir, o lateral-esquerdo daquele time, recorda:

Nessa excursão, nós percebemos duas pessoas extremamente individualistas, que eram o Rafael [Cammarota, campeão brasileiro pelo Coritiba em 1985] e o Paulo César Caju. O Rafael às vezes achava que tinha que ganhar a posição no grito, porque era um goleiro bonito, alto, experiente. O reserva dele era o César, que

era baixinho, feio, preto. O Paulo César Caju também pensava só nele, se achava o bambambã, campeão do mundo, essa coisa toda.

Rafael e Paulo César Caju foram afastados do elenco meses depois.

Ali, a Democracia Corintiana começou a demonstrar sua face pouco democrática.

Para Rafael, sua ruína foi ter apoiado publicamente o ex-presidente Vicente Matheus. Por isso o grupo não levou em conta as más condições físicas do titular César nas semifinais do Brasileiro de 1982 contra o Grêmio, sob o argumento (que seria repetido um ano depois, contra Leão) de que Rafael

poderia entregar o jogo para prejudicar o movimento.

Rafael relembra: "A Democracia era boa para três, para o resto não era, porque quem resolvia eram os três: o Magrão, o Adílson e o Wladimir. O Casa era o escudeiro, porque estava começando. Tudo era resolvido entre eles, eles não traziam nada para nós. Quando vinha para a gente já vinha resolvido, já vinha feito. Que porra de democracia era essa?".

Adílson teria lhe dito: "Sua indisciplina não foi técnica, nem física. A sua indisciplina foi ter falado que preferia o tempo do Matheus".

Rafael estava afastado do elenco, sem contrato e sem poder jogar. Sócrates apresentou uma proposta humilhante para reintegrá-lo ao grupo: "O Magrão veio conversar comigo, que eles iam fazer uma reunião, para eu pedir desculpas para o Adílson. Eu não vou pedir desculpas de uma coisa que eu não estou errado, pô!".10 Rafael acabou emprestado para o Atlético Paranaense.

Na ânsia por montar um supertime, Adílson Monteiro Alves, um dos cabeças da Democracia Corintiana, contrariou seus próprios princípios na hora de contratar Leão. Evidenciando o fato de que, na verdade, a Democracia sempre foi um movimento no qual poucos realmente comandavam, consultou apenas Sócrates, Wladimir, Zé Maria, o técnico Mário Travaglini e o preparador físico Hélio Maffia antes de trazer o já consagrado goleiro. Até Casagrande ficou de fora. Revoltado, o atacante passou semanas sem dirigir a palavra ao goleiro.

A revista Placar, que apoiava o movimento desde o início, teve de se contradizer e chamar de antidemocrática a crítica dos jogadores à maneira como a direção do clube contratou Leão. Por bater de frente com os líderes do movimento, Leão não teve vida fácil. Em depoimento a Ricardo Gozzi, autor do livro Democracia Corintiana: A Utopia em Jogo, pessoas próximas ao elenco contaram, sob a condição de anonimato, que Leão foi pressionado e ameaçado pela diretoria

do Corinthians caso o time não se classificasse para as finais do Campeonato Paulista de 1983.

"No hotel, houve uma reunião entre os jogadores, comissão técnica e diretoria antes de o time sair para o Morumbi", disse uma fonte. Na reunião, foram tratados problemas de relacionamento no elenco. De acordo com a fonte, em um determinado momento, Sócrates pediu a palavra e acusou Leão de ser o responsável direto pela desunião no grupo devido ao seu estilo individualista. A maior parte do grupo concordou. Leão também expôs seus argumentos.

"Em seguida, o Adílson virou para o Leão e disse o seguinte: 'Se você tomar um gol e o Corinthians perder a vaga na final, todos nós vamos até a imprensa depois do jogo dizer que você entregou o ouro'", relatou a fonte..

Sobre o Autor

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar.Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

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