Blog do Menon

Calleri, o facilitador. Personagem da semana

Menon

Amigos;

Quando o maior ser humano de todos os tempos – seu nome se perdeu na história – inventou o futebol, reservou ao centroavante um espaço próprio dentro do campo. A área adversária é o seu habitat. A pequena área adversária é o seu Shangrilá, seu Paraíso.

Ali, em solidão, ele busca a glória. O centroavante é homem de poucas palavras, um monoglota, um monossilábico, embora saiba fazer gols em todas as línguas e todos os dialetos.

O centroavante é solitário e não é solidário. Ele nasceu para ser servido e não para servir. Ele é como um D. João VI, glutão à espera de garçons que lhe empanturrem de frangos e leitões. Sua fome, ele mata com gols. Sua e de milhões que torcem por seu time. Milhões ou dezenas, não interessa. O importante é levar alegria aos súditos do Rei Futebol.

Centroavante tem pacto de amor com a bola bandida, maldita, que escapa de zagueiros e se encaminha a ele, toda cheia de amor, dizendo me chuta, me chuta, me chuta… (Zé Silvério é um gênio). Centroavante não dribla, não faz firula, não sai da área. Tem uns serelepes por aí, que fazem gols com enorme facilidade, espalhando chaleira, drible da vaca, carretilha, rabonas, gambetas, chilenas, genialidade, enfim, por todo o terreno. Não são centroavantes, são messis e neymares, são gênios. OuMorais, que fez o que fez com Leandro Almeida em um palmo de grama.

Centroavante é um facilitador.

Como Jonathan Calleri mostrou ser em impressionantes 120 minutos de futebol com a camisa do São Paulo. Chegou na sexta, deu entrevista na segunda, viajou na terça, evitou um vexame no Peru, voltou ao Brasil e fez mais dois. E, por cima, uma assistência a Michel Bastos.

Lembremos os gols do facilitador Calleri. No primeiro, Gérson de Oliveira Nunes dominou a bola antes do meio do campo. Levantou a cabeça e fez o lançamento. Calleri correu com o zagueiro, ganhou no corpo e deu um toque com o pé direito. Um toque, simples, por cobertura. Não se enrolou com a bola, não tentou o drible, nada disso. Fez o que Romário, a hiena da área pequena, faria. Resolveu como centroavante, como facilitador.

No segundo gol, estava bem no centro da área. Quando a bola chegou a Wilder, ele se deslocou um pouco para a esquerda e cabeceou no contrapé de Roberto. E, no terceiro, houve o tal pacto com a bola. Ela avisou aonde estaria após o cruzamento de Caramelo. Avisou sussurrando para que os zagueiros não ouvissem.

Três gols e três toques. Sem tabela, sem drible, sem firula e, sejamos sinceros, sem beleza. Gols de centroavante, o cara que está em campo para facilitar e não para fazer poesia. Gols fáceis de fazer? Engano seu. Engano nosso. Gols que parecem fáceis de fazer. Gols que só centroavantes fazem.

Calleri tem aspecto comum. Um pouco démodé, old fashion, nesses tempos em que um pedaço de pele original é raridade em um mar de tatuagens. Parece mais um garçon antigo, dono de elegância discreta, capaz de passar horas ouvindo histórias sobre mulheres terríveis que se foram sem um adeus, deixando para trás, cheiro de perfume barato e contas para pagar. Nada a ver com garçons de hoje, estudantes da fefelexi ou futuros gênios da fotografia ou do design, gente que está ali por um tempo, enquanto não ganha um Leão em Cannes.

Vai ficar pouco tempo e mesmo que uma seca de gols – a praga que aterroriza todo centroavante – o atinja, trazendo consigo a justa ironia e gozação dos rivais, Calleri já está marcado como o argentino discreto e elegante, que, com três toques, fez três gols em 12o minutos.

E, que com as duas mãos encostadas, de forma perpendicular, na testa, sobre os olhos, como um pirata antigo – deu aos são-paulinos a impressão e a esperança de que há título à vista.