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Um relato sobre a guerra no Maracanã

Menon

24/10/2016 14h53

semcamisa"Meu nome é Anderson Araújo, tenho 35 anos e trabalho com RH. Fui de ônibus, com mais três amigos ver o Corinthians enfrentar o Flamengo no Maracanã. No Rio, nos encontramos com outro amigo, que veio de Angra para ver o jogo. Seguimos o conselho de outros amigos e fomos ao estádio sem camisa do clube ou de uniformizadas. Almoçamos e entramos no estádio. Tudo estava normal.

Até que começou o aquecimento dos goleiros. Alguns torcedores do Flamengo tentaram invadir o nosso setor, pulando a grade. Corri para longe. Deu para ver que a polícia só batia nos corintianos. Houve uma reação e a guerra começou com garrafa dágua contra gás de pimenta e cassetete. A televisão mostrou apenas a parte em que um soldado apanhou da torcida.

No final do jogo, houve festa nossa. Tudo normal. Então, o serviço de som mandou a gente aguardar. Também normal, sempre a gente espera uma hora após o jogo para evitar confusão na saída. Então, entrou o GEPE (Grupo especial de policiamento em estádios) que impediu a ida ao banheiro. E começaram a gritar coisas como:

Aqui não e São Paulo, não. Aqui vocês vão pagar feio pelo que fizeram.

Ah, não fez nada. FODA-SE. Quem mandou andar ao lado de bandido. Vocês vão pagar pelo que fizeram.

Vocês não gostam de bater em polícia? Então, vão pagar por esse gosto. Não bateram no nosso colega? Agora, vão pagar. Aqui não é São Paulo não, onde vocês tiram até capacete de polícia e não acontece nada.

Começou então a separação de quem era organizada e torcedor comum. Eles perguntavam e tinha muita gene em pânico, com muito medo. Eles demoravam a responder, não sabiam o que dizer e apanhavam. Murros nas costas e cassetete.

Veio então a ordem de liberar mulheres e crianças. As mulheres choravam por ficar longe dos maridos, sem saber o que iria acontecer com eles e a resposta era a mesma: "Foda-se. Quem mandou vir em estádio com bandido."

Aí, mudou a ordem. Todo mundo junto, não ia mais separar ninguém. Então, os soldados escolhiam alguns para interrogar. Os pretos, os de barba e os que tinham tatuagem.

Você tem tatuagem?

Onde?

Mostra aí

Está ficando famoso hein?

Não explicavam nada. Porque estavam "famosos".

Aí, mandaram todo mundo tirar a camisa. Com a mão no joelho, coluna reta e olhando para frente. Acho que a intenção era evitar identificação, mas eu anotei mentalmente os nomes de Lisboa e Chumbinho, os dois policiais que estavam mais nervosos.

Então, começaram a ameaçar:

Sabe para onde vocês vão? Para Bangu 1. Sabe o que acontece em Bangu 1? Coincidência, muita coincidência. Lá, as pessoas escorregam e quebram um braço, uma perna. Podem ficar tranquilos. Hoje, a gente não sai daqui. Podemos ficar até as nove, dez, dobrar serviço, ninguém tem pressa.

Havia uns orientadores do estádio que falavam para a gente tomar cuidado com resposta e tom de voz. Para a gente não fazer nenhuma besteira.

Duas horas depois, fomos liberados. Na saída, fizeram um corredor polonês. A gente passava e eles gritavam no nosso ouvido, que ali era o Rio e não era São Paulo.

Depois, ouvi relatos de que os torcedores presos apanharam muito. Sem dó. Mas eu não tenho confirmação"

 

 

Sobre o Autor

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar.Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

Menon