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Sem Abel, Santos continua disposto a pagar o que não tem a quem não merece

Menon

Abel Braga recusou o convite do Santos para treinar o time em 2019. Um fato que deveria ser comemorado na Vila Belmiro. A oferta ao treinador de currículo invejável e parcas conquistas recentes teria sido de R$ 1 milhão por mês. Ou R$ 800 mil, segundo outras fontes. Uma remuneração indecente quando se lembra o país em que vivemos. Mas, tudo bem, o futebol não deve se balizar pela nossa desigualdade social. O que deve valer é a lei de oferta e procura. É o mercado. Não há treinador iniciante, em time grande, que ganhe menos de R$ 200 mil por mês.

Ah, o mercado. Um deus a ser reverenciado. Uma chaga que nunca é enfrentada. Uma Ferrari 458 spider usada, com 8 mil quilômetros rodados, é anunciada hoje por algo em torno de R$ 1,5 milhão. Nova, pode chegar a R$ 4 milhões. É o mercado. Não se pode discutir o preço. O que se pode fazer é, como eu, continuar andando de táxi ou de metrô.

É o que o presidente Peres, do Santos, deve achar brega. Horrível. Prefere pagar o que não tem. O que o clube não tem. Não há nenhuma preocupação com responsabilidade fiscal. Sem Abel, ele pensou em Muricy. Novamente, não teria como pagar. E se ouvisse um sim, pagaria feliz da vida. Como alguém que compra uma Ferrari e dorme dentro dela porque não tem apartamento.

Não é só o Santos. A grande maioria dos clubes se rende e, mais do que isso, ajuda a construir a vertiginosa ascensão salarial dos treinadores brasileiros. Vertiginosa e falsa. Falsa porque não se sustenta na qualidade técnica. O que o treinador de seu clube fez de bom no último ano para justificar pertencer a uma casta que chega a receber uma megassena por mês? Fiquemos com Felipão, o melhor do ano, legítimo campeão brasileiro. Foi engolido por Barros Schelotto, na Bombonera e no campo do Palmeiras.

Olhemos para as grandes ligas. Qual treinador brasileiro está por lá? E como ter sucesso na Premiére League, por exemplo, se a maioria não sabe dizer ai lóvi iu? E qual é a necessidade de estudar, de fazer curso, de buscar alternativas táticas, se aqui em Pindorama sempre há um dirigente ousado – com o dinheiro do clube e não dele – capaz de pagar R$ 30 mil por uma DIA de trabalho?

A pobreza do treinador brasileiro é tão grande que são divididos entre propositivos e reativos. Entre os que querem jogar no campo adversário e os que adoram o contra-ataque. Então, quando o Roger Machado vai mal no Palmeiras, dizemos que a culpa também é do Palmeiras, que contratou alguém propositivo para um elenco reativo. Ora, meu jesuscristinho, um cara que ganha um salário tão alto não deveria estar apto a fazer qualquer elenco funcionar? Não deveria se adaptar ao que tem e fazer um bom trabalho. Ou, no mínimo, ter a coragem de dizer que o elenco não se adapta a seus conceitos e recusar a bufunfa?

Mas, não. Eles são os reis de um futebol que patina na mediocridade há tempos. Não é coincidência.

 

 



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