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Pelé e Di Stefano. Os reis se encontraram apenas uma vez, há 60 anos

Menon

17/06/2019 07h33

Alfredo Stéfano Di Stéfano Laulhé e Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, se enfrentaram apenas uma vez. Foi em 17 de maio de 1959, em Madri. O Real Madrid ganhou por 5 x 3, com três gols de Mateus, um de Puskas e um de Gento. O Santos marcou com Coutinho, Pelé e Pepe. A partida homenageava Miguel Muñoz, atacante que estava se aposentando após gloriosa carreira no Real Madrid, com três títulos seguidos da Liga dos Campeões.

Foi o encontro entre o maior jogador do mundo e seu sucessor. Di Stefano, aos 33 anos, era o Rei. O argentino, campeão pelo Huracan e pelo River, depois de jogar na liga pirata da Colômbia, chegou ao Real Madrid em 1953, após uma grande briga com o Barcelona, que também o queria. Dirigentes espanhóis intervieram e decidiram que ele defenderia os grandes rivais em temporadas alternadas. O Barcelona não aceitou e Di Stefano transformou o Real Madrid no maior time do mundo.

Duas semanas antes do encontro, o Real Madrid havia conquistado o quarto titulo seguido da Liga dos Campeões, vencendo o Reims, em Stuttgart, por 2 x 0, um gol de Mateus e outro de Di Stefano, que foi o terceiro artilheiro da competição. Marcou seis vezes, atrás do brasileiro Vavá, do Atletico de Madri, com nove, e do francês Just Fontaine, com dez, do Reins.

Di Stefano era a grande estrela. Pelé, o pretendente. A transição entre eles no posto de maior jogador do mundo havia começado um ano antes. Em 28 de maio de 1958, Di Stefano havia vencido a Liga dos Campeões pela terceira vez. Foi o artilheiro com dez gols, um deles na final por 3 x 2 contra o Milan. Em 15 de junho, Pelé estreou em Copas do Mundo, contra a União Soviética. No dia 19, fez seu primeiro gol em Mundiais, na vitória por 1 x 0 sobre País de Gales e no dia 29, ganhou seu primeiro título mundial, com dois gols o 5 x 2 contra a Suécia.

Mesmo com o título da Copa, Pelé era pouco conhecido mundialmente. Seus gols eram comentados, mas sua fisionomia ainda não. O jornal ABC, ao publicar uma foto da chegada da delegação santista a Madri, um dia antes do jogo, explicava, na legenda, quem era Pelé. "Nós sabíamos muita coisa do Real Madrid. A gente sabia o ataque todinho, com Canário, brasileiro, Puskas, Di Stefano e Gento. Quando soubemos que a gente ia jogar contra eles, ficamos entusiasmados", conta Pepe, o segundo artilheiro da história do Santos, atrás de… Pelé, claro.

A definição de que haveria jogo foi uma surpresa. "Naquela época, a gente saía para excursionar e os jogos iam sendo combinados na Europa. Não era uma excursão fechada. Estávamos na Bélgica, acho e veio o aviso que dali a três dia, o adversário seria o Real", lembra Pepe, que não usa o cansaço como desculpa para a derrota.

Até poderia porque o ABC, na crônica do jogo, fala que o Santos tinha um toque de bola excepcional, mas era lento. E que o Real fez uma marcação forte para evitar o estilo técnico dos santistas.

O texto começa ironizando os brasileiros. Dizia que o resultado de 5 x 3 faria muita gente mudar de ideia quando diz que o fato de o Real Madrid cobrar muito caro para jogar no Brasil seria por medo de perder um jogo no Maracanã. E afirma ter certeza que os jogadores brasileiros contarão a verdade sobre a superioridade do Rea Madrid.

Sobre o jogo, diz que o Santos cometeu o erro de jogar de forma lenta, um estilo que agradava muito ao Real. Para vencer os espanhóis é preciso velocidade, dizia o ABC. Pepe tem outra versão. "Olha, o Santos era assim mesmo. Tinha uma ataque espetacular e uma defesa mais fraca. A gente marcava muitos gols e sofria muitos também. Nesse jogo, o Pavão, nosso lateral sofreu muito com o Gento. Deve ter sonhado com ele. O cara era um inferno. E tinha ainda o Puskas, que entrou depois".

O Santos marcou primeiro, com Pelé. "Foi um gol admirável. Ele disparou sem um segundo de vacilação uma pelota solta no momento em que Satisteban a disputava com Pagão. O interior, longe da área, viu o balão em litígio e meteu o pé com tanta força que a pelota passou como um raio ate o fundo da rede madridista".

Vejam como o termo interior, citado agora no Brasil como modernidade, já era usado na imprensa europeia há 60 anos.

O Real Madrid, segundo o ABC, implantou velocidade ao jogo e fez quatro gols com Mateus, o último deles anulado por impedimento. Na descrição de todos os gols, aparece Di Stefano. E Gento, assustando Pavão e Getúlio, como Pepe disse. Pelé? "Profundo e hábil, apenas tentava contra-ataques". O ABC elogia ainda Gainza e diz que o Santos melhorou com a entrada de Coutinho em lugar de Pagão.

A Gazeta Esportiva também criticou a opção por Coutinho, além de estranhar a escalação de Lalá no gol (Quem?), pergunta no texto. Lalá também era conhecido por Carlos. A análise de A Gazeta Esportiva  foi pequena, no editorial do jornal.

O Santos reagiu no segundo tempo, com um gol de pênalti, sofrido por Pelé e convertido por Pepe. "Foi no meu estilo. Uma pancada", lembra o então ponta-esquerda santista. O pênalti foi contestado pelo ABC, que aponta algo que hoje é muito falado. Eles dizem que o árbitro, Mr Horn, não estava acostumado às "triquiñuelas" de jogadores sul-americanos. Pelé entrou na área com a bola um pouco adiantada. Quando chegou o zagueiro Santamaria, Pelé teria se atirado. E, impressionado pela queda, o juiz marcou o pênalti. Triquiñuelas igual a truques. Ora, seria Pelé um antecessor de Neymar?

O gol foi aos 11 minutos. Aos 14, Puskas marcou de cabeça. Depois, Pelé conseguiu uma arrancada e um chute forte, que o goleiro Berasaluce rebateu para a conclusão de Coutinho. E o Real Madrid, com nova jogada de Di Stefano, marcou o último, com Gento.

O ABC fala que houve uma atitude ruim de vândalos. Foi uma garrafada que acertou Pepe. "Eu me lembro bem. O cara queria acertar o bandeirinha e eu que sofri. Mas foi pouca dor. Continuei jogando".

Na análise final do jogo, o ABC disse que o jogo foi bom, mas sem excessos. Que o Santos era um grande time, mas que o Vasco era melhor. Provavelmente o Vasco havia excursionado anteriormente pela Europa.

E Pelé? "Com lampejos de grande craque, não nos deslumbrou.

O ABC faz ainda uma brincadeira. Disse que Mateus havia jogado tão bem quanto Pelé e que os dirigentes do Santos teriam feito uma oferta por ele.

A verdade é que se especulava sobre o interesse de Real por Pelé. A Folha da Noite falou sobre o assunto.

 

Três anos depois, Pelé e Di Stefano estavam no Mundial do Chile. Poderia ser um novo tira-teima entre eles. Não foi. Pelé se machucou no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, e não atuou mais. Contra a Espanha, jogou Amarildo. Di Stefano, contundido, foi ao Chile e não participou de nenhum jogo.

Em setembro e outubro de 1962, um novo encontro foi impossível. O Mundial Interclubes reuniu o Santos, campeão da América do Sul, e o Benfica, campeão europeu, que derrotou o Real Madrid na final da Liga dos Campeões.

O Santos venceu no Brasil por 3 x 2 e em Lisboa por 5 x 2. Pelé fez dois no primeiro jogo e três no segundo. E venceu o duelo contra Eusébio, figura ascendente na Europa.

Pepe fez um gol. "Foi aí que ficamos ainda mais conhecidos no mundo todo e acabou a dúvida. Pelé foi o melhor do mundo, sem dúvida".

E assim foi. Em novembro de 63, o Santos foi bicampeão do mundo, derrotando o Milan. Antes, em junho, enfrentou o Barcelona, em um amistoso. O Barcelona venceu por 2 x 0, mas a propaganda do jogo não deixava dúvidas sobre quem era a grande atração.

 

 

 

 

Sobre o Autor

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar.Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

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