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Tetra: Grandeza de Branco contra o bairrismo de um jornal

Menon

12/07/2019 21h09

"Branco, ajude a Seleção. Faça como Careca e peça para sair".

A manchete de A Gazeta Esportiva, em 93, não remetia a uma matéria. Ela chamava uma coluna do grande jornalista Vital Bataglia, editor do jornal.

Devo muito a Battaglia. Eu tinha 40 anos e apenas seis de profissão. Tinha muitos defeitos e ainda era turrão. Mesmo assim, fui um dos escolhidos para a cobertura da Copa de 94.

Sem falsa modéstia, tinha meus méritos, mas quem garante que outro editor os reconheceria?

Eram tempos diferentes. A seleção despertava paixões e havia uma disputa dos mais velhos sobre quem deveria mandar: paulistas ou cariocas.

Battaglia era, desde sempre, um defensor dos paulistas. Ele questionava Zagallo desde a Copa de 70. Não reconhecia méritos no treinador, a não ser em haver se rendido ao que Bataglia chamava de "time do povo'.

Do lado carioca, o grande defensor era Oldemário Touguinhó, repórter das antigas. Ele se referia aos paulistas como caipiras. E Bataglia o chamava de verdureiro, por ter trabalhado em uma banca de verduras.

A briga era assim. Sem tréguas. E, naquela época, havia um ingrediente a mais. Bataglia havia sido escolhido por Falcão para ser seu assessor de imprensa em 91. A experiência durou pouco. Falcão foi demitido e Bataglia montou sua barricada na Gazeta. Era preciso enfrentar quem o havia derrubado.

Branco era o alvo. Dunga também. Os repórteres eram pautados por Battaglia, que exigia marcação cerrada.

"Como você, um jogador de pouca técnica, se sente usando a camisa 8 que foi de Didi", perguntei a Dunga. Ele respondeu educadamente, dizendo que o futebol havia mudado e que ele apenas tentava fazer o melhor para o Brasil.

Nota: eu já achava e ainda acho o Dunga um grande jogador. Não era o Didi, é lógico, mas tinha ótimo passe, marcava bem e chutava forte.

E tome pau em Parreira e Zagallo. E, em Branco, o grande alvo. Ele vinha de uma contusão e não estava recuperado. Os paulistas, não só a Gazeta, clamavam por Roberto Carlos.

No dia 4 de julho, o Brasil venceu os EUA. Leonardo deu uma cotovelada em Tab Ramos e foi expulso. Parreira colocou Cafu, que era reserva de Jorginho na direita, para atuar na esquerda.

O próximo adversário seria a Holanda, que tinha Marc Overmars, considerado o maior ponta do mundo. A Gazeta ( Battaglia) passou a defender intensamente a manutenção de Cafu.

E eu? Cumpria pautas, mas nas reuniões internas dizia que tinha confiança total em Branco e que, se jogasse, iria acabar com o tal Overmars. Tinha esse pressentimento, mas também marcava posição por não concordar com o massacre sofrido por Branco. Era muito exagerado.

Branco sabia em que jornal eu, Fernando Galvão de França e João Henrique Pugliese trabalhávamos. E nunca se recusou a responder uma pergunta. Nunca se queixou a nós de nada. Apenas trabalhava firme.

Um parêntese. Minha relação com Battaglia havia degringolado. Tivemos uma briga com muitos palavrões em um aeroporto. A tensão era grande. Fernando Galvão, com muita firmeza, foi o bombeiro.

Chegou o jogo e foi o que eu, por intuição e por necessidade de afirmação junto a Battaglia, havia dito o que aconteceria. Branco não deixou Overmars jogar e ainda fez um gol antológico.

Fez o gol e minha comemoração antecedeu a dele. Pulei e gritei seu nome. Ao meu lado, Battaglia. Imóvel.

O Brasil foi campeão. O Corinthians contratou Branco. E a Gazeta? Críticas e mais críticas.

Havia um revezamento na coluna de opinião da página dois. No meu dia, escrevi algo do tipo Deus, guacamole e Branco.

Minha tese era que quando eu dizia que não acreditava em Deus e que adorava guacamole e admirava Branco, era muito contestado.

E seguia dizendo que entendia a contestação às primeiras opiniões. Realmente, eram polêmicas, mas por que não admirar Branco? E citava todas as suas qualidades, inclusive o gol contra a Holanda.

Fui chamado à sala de Battaglia.

O que é isso?

Minha opinião. Ninguém colocou barreiras e nem deu recomendação sobre temas proibidos.

Pode ir. Nunca mais questione Deus.

E nem poderia. Acabou o rodízio e a opinião ficou restrita a Battaglia.

Bem, o Corinthians foi jogar com o Palmeiras, Rivaldo ganhou uma bola dominada por Branco e o Palmeiras venceu. A carreira dele no Corinthians praticamente terminou aí.

Conto essa história toda para dar meu testemunho sobre

1) a grandeza de Branco

2) a imprensa da época, muito diferente do que se vê hoje. Muito mais opinativa e editorializada. Hoje, é muito melhor.

Sobre o Autor

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar.Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

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