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Thaís Picarte: "Nenhuma jogadora brasileira consegue se aposentar"

Menon

15/07/2019 13h26

Thaís Picarte, goleira do Santos e que serviu à seleção brasileira por dez anos, é inconformada com a situação precária em que vivem as jogadoras brasileiras. "Somos profissionais tratadas como amadoras", resume.

Ela luta para mudar a situação. Ocupa uma diretoria na Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais) e é vice-presidente do SIAFMSP (Sindicato dos Atletas Profissionais de Futebol do Município de São Paulo), que está em fase final de implantação, à espera da carta sindical.

Em entrevista ao blog, ela traça um perfil da situação das jogadoras brasileiras e lamenta que estrelas como Marta não se posicionem em prol do coletivo.

As jogadoras de futebol vivem em um regime profissional no Brasil?

Longe disso. A CBF dá chancela ao campeonato, como se fosse profissional, mas permite a participação de times amadores, que não dão condição de treinamento e pagam muito mal, quando pagam.

O regime é CLT?

Apenas dois clubes brasileiros são estritamente profissionais. Registram as jogadoras, como deveria ser com todo trabalhador. O Santos e o São Paulo são exemplares. Em outros clubes, há uma ou outra jogadora registrada. As outras, não.

E o Corinthians, que tem um time muito forte?

Zero. Nenhuma profissional.

Mas a Tamires foi contratada agora. Ela não tem margem de manobra, não tem como brigar e assinar somente se for registrada?

Eu acho que tem, mas as jogadoras do Brasil sempre foram tratadas assim. Estão acostumadas, é difícil perceber que pode mudar. A Cristiane, por exemplo. só teve carteira assinada no Santos e no São Paulo. Menos de dois  anos, no total. Conversamos um dia e ela começou a pagar como autônoma, mas tem só mais dois anos. No total, dá quatro anos, no máximo. Eu tenho dez anos de contribuição, entre carteira e autônoma.

E como fica a situação das jogadoras depois do fim de carreira?

Nenhuma jogadora consegue se aposentar. Você não vê história triste de jogador que se aposentou e uns anos depois ficou na miséria? Nossa situação é muito pior, porque eles ganham dinheiro enquanto jogam. Nossa média salarial é ridícula. Jogadora boa ganha no máximo R$ 2 mil. As de seleção ganham mais. Então, temos casos como a Elaine, que foi capitã da seleção e hoje trabalha como motorista de ônibus.

Aquele discurso da Marta após o final da Copa do Mundo foi importante?

Foi um alerta para as jogadoras novas, mas deu a impressão que a culpa de tudo é da atleta e não do sistema todo.

Ela ajuda a mudar a situação?

A realidade da Marta é outra. Ela fez carreira fora do Brasil e não sofreu tanto como se sofre por aqui. O empresário dela não permite que ela se envolva em assuntos deste tipo porque pode afetar a imagem dela.

Mas ela se posicionou durante o Mundial.

Sim, de maneira pontual e individual. Estava sem patrocínio e então exibiu a chuteira preta e falou sobre igualdade de salários. E teve aquela ação do batom. São coisas dela. Mas, como ela é conhecida como é, mundialmente, de certa forma ajuda as outras jogadoras.

Desde que você começou, o que evoluiu mais: a questão trabalhista ou o preconceito de gênero?

O preconceito não existe mais, praticamente. No início, quando resolvi ser jogadora, tive muitos apelidos pejorativos. Muitas famílias não deixavam a filha jogar por causa de preconceitos sobre sexualidade. Hoje, é uma questão superada, ser lésbica ou não ser lésbica. Mas, a questão profissional é que continua terrível. Inclusive, piorou porque em 1997 era melhor, havia carteira assinada. Agora, não tem para ninguém.

A sua luta é pela profissionalização, então?

Sim, uma luta que nem deveria ter. Trabalhar e receber é básico. Outro dia, o Santos venceu o Sport por 9 x 0. A repórter da CBFTV foi entrevistar a jogadora do Sport e perguntou pela diferença. Ela disse que as atletas do Santos, além de serem muito melhores, tinham onde treinar. As do Sport ficavam esperando um campo para treinar algumas vezes por semana. Não dá para chamar um campeonato assim de campeonato profissional. Não dá para ter uma diferença de 9 x 0.

Sobre o Autor

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar.Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

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