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Oswaldo e Gallo mudaram muito e censura é inaceitável
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Menon

Conheci o Oswaldo de Oliveira quando ele era auxiliar do Luxemburgo, no Corinthians, há 20 anos. Eu cobria o clube, pelo Lance!,  juntamente com o talentoso e criativo repórter Chico Silva. E ele, o Chico, fez uma matéria sobre o Oswaldo, falando sobre seu lado zen, hoje tão ausente. O treinador era fã de de Chet Baker, trompetista norte-americano. Alguns meses depois, em Atibaia, onde o time se preparava para um jogo ou um campeonato, não me lembro bem, após o almoço, Amaral, o volante, subiu ao palco e começou a cantar “O show tem que continuar”, do Fundo de Quintal. Todo mundo cantava alto e Oswaldo se levantou da mesa. Pensei que haveria uma bronca na turma. Que nada! Ele sambou muito. E sambou bonito, com ginga.

Em 2015, ele estava no Palmeiras. E eu o notei com pouca paciência. Talvez tenha sido depois daquela discussão com o torcedor, que gostaria de ver Gabriel Jesus no time titular. Perguntei a Oswaldo o motivo da mudança. E ele me respondeu que havia trabalhado muitos anos no Japão, onde tudo funciona perfeitamente e que sentis dificuldades de adaptação.

Agora, voltemos a 2003. Estava na praia do Gonzaga, em Santos, e vi, em uma cadeira ao lado, o Gallo, que estava pensando em iniciar a carreira de treinador. Ele sempre me tratou bem, quando era jogador de Santos, São Paulo e Portuguesa, e me disse que tinha um caderno com mais de 70 tipos de treinamento. “Podia fazer uma matéria comigo, né”. Lógico que podia. O assunto era interessante. Por quê não? Não seria um favor, a pauta se sustentava. Não saiu, não sei porquê.

Agora, a gente vê o Oswaldo totalmente fora de si, deixando uma entrevista para brigar com jornalista. E o Gallo, aquele que achava natural pedir uma entrevista, proibindo o mesmo jornalista de trabalhar. É triste ver as pessoas se desnudarem assim.

Oswaldo questionou o tipo de pergunta do repórter Leo Gomide. O seu entendimento é binário. Você pergunta e eu respondo. Não cabe a você fazer análise. Eu não concordo. O repórter tem todo o direito de fazer a pergunta que quiser, baseada em seus conceitos futebolísticos. E Oswaldo, repito o que sempre digo, tem todo o direito de não responder. Não precisava daquele ar alucinado.

Depois, Oswaldo perdeu a cabeça quando ouviu o repórter dizer, vamos lá, caralho. Leo diz que não disse. Oswaldo diz que disse. Mas, mesmo se houvesse dito, era um desabafo, fora do ar, já abandonando a entrevista. Não era uma ofensa. Não disse palhaço, não disse, sei lá, velho do caralho, nada disso. Nada justificaria a tentativa de briga.

Na televisão, um dia após o jogo, Oswaldo fala que, desde que chegou, foi avisado sobre o tipo de pergunta do repórter. Ora, está dando ao Leo Gomide um atestado de bom repórter. Bom repórter faz pergunta que incomoda. Sempre. Não é o entendimento de Gallo também, como se viu lá em 2003. Ele gostava de pedir uma matéria ao repórter. Não gosta de repórter que faz pergunta fora dos padrões normais definidos por eles.

 


Professor Gallo e General Pinochet: tudo a ver
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Menon

O treinador Gallo cantou forte e anunciou que nas seleções de base não haverá mais jogadores com brincos, fones de ouvido, penteados diferentes e com marra. Sua decisão me lembrou o Chile de Pinochet e a Argentina de Cesar Menotti.

Leitor assíduo de jornais, uma das imagens mais chocantes que guardo na memória foi de jovens chilenos fazendo filas enormes para cortar o cabelo. Era 12 de setembro de 1973, um dia após o golpe militar do general Pinochet, que acabou com a experiência socialista – referendada pelo voto – de Salvador Allende.

Uma cena brutal. Seres humanos sendo obrigados a usar um tipo de cabelo determinado pelo milico de plantão.

Menotti não tem nada a ver com Pinochet. E nem com Gallo. Treinador que sempre apostou no toque de bola e na boa colocação da defesa em vez de faltas violentas, Menotti era um amante do futebol. E contava uma história para ilustrar como esse era o esporte mais democrático existente.

“Se em qualquer treino de qualquer esporte, o treinador se recusar a dar uma chance para um garoto gorducho, um garoto aleijado ou um garoto quase anão, ele terá poucas possibilidades de estar errado. Se for treinador de futebol, poderá estar afastando genios como Coutinho, Garrincha e Maradona”.

É isso. Gallo não quer marra. Vai para casa, Romário. Gallo não quer cabelo comprido? Fora, Neymar. Gallo não gosta de brinco. Toma seu rumo, Maradona.

É muito triste ver a paixão popular nas mãos de alguém tão tacanho. Ele deveria estar preocupado com a falta de jovens jogadores que saibam marcar (laterais), que saibam passar (volantes) que saibam fazer recomposição (meias).

O Brasil está atrasado taticamente, basta ver o futebol europeu. (E como me dói dizer isso) e o professor quer saber de comprometimento, de restrições, de autoritarismo.

Ele disse, ao Estadão, que há um garoto sub-15 do Grêmio, de ótimo futebol e que não foi chamado porque se recusou a dar a mão a um treinador durante um jogo. Fácil, né? Difícil é convocar e ensinar. Passar conceitos. Melhor, não. Que conceitos passaria? Ordem, disciplina, restrição?

O Brasil tem dado muito valor aos treinadores. Um jogador pode se chamar Gallo. Quando vira técnico se transforma em Alexandre Gallo. Junior vira Dorival Junior. E aí vai. Treinador é tão importante que precisa ter sobrenome.

Atitudes como essas de Gallo mostram o deserto de ideias que vive o futebol brasileiro, comandado por esse tal Marin, esbirro da ditadura.

O Brasil não é assim. Não é um país jeca. Nosso futebol é maravilhoso. Não precisa de professores gallos.


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