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Camisa de Senna, futebol de Nakajima
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Menon

Saudades do Diário Popular. Muitos amigos. Um deles, Nelson Nunes é quem fez o desabafo acima, que transformei em título do post.

O coração alvinegro extrapola o sentimento. Pode até ser exagero. Mas que o Corinthians jogou mal, jogou. Homenageou Ayrton Senna na camisa, mas quem parecia estar em campi era Satoru Nakajima.

Paquetá é um ótimo jogador. Fez dois gols e iniciou a jogada do terceiro, mas teve sua vida facilitada pela defesa. Dois gols de escanteio. A bola via e ninguém consegue tirar.

Gabriel, como lateral, foi péssimo. Levou um baile de Vitinho.

O ataque não funcionava e Jair Ventura colocou um sub-20, Pedrinho, e dois sub-40, Danilo e Sheik. Vai virar de que jeito?

O time ficou aberto e levou o terceiro.

Na decisão da Copa do Brasil, o time precisa jogar muito mais. Como? Buscando força na mística da camisa e na força da torcida. Porque, além disso que entraram, tem o Roger. Não é animador.


Jô, sob a ótica e a ética de Nelson Rodrigues. E de Nelson Nunes
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Amigos, conhecem aquela história do gol tão bonito que merece a compra de um novo ingresso? Pois é. Depois de lerem o texto abaixo, tenho certeza que irão se sentir assim. É um presente meu para vocês. O texto é do meu amigo NELSON NUNES, um dos grandes que conheci na minha carreira.

 

Já que, sob a inspiração de um gol de mão, o caráter (ou a falta dele) do brasileiro virou a pauta principal da mesa-redonda nacional

Nelson Rodrigues em linda caricatura de Latuff

desta segunda-feira, nada melhor do que saber o que pensava o mestre Nélson Rodrigues sobre essa intrincada conjunção de interesses que colocam, lado a lado, futebol e ética. Foi através do futebol que nosso mais respeitado dramaturgo criou metáforas para explicar o Brasil e entender os brasileiros. Numa delas, mais de quatro décadas antes do melodrama “La mano de Jô”, nosso Dostoievski caboclo advertiu, com a propriedade de quem conhece o submundo da condição humana, que “não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos; muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida.”

Forjado num universo de personagens que gravitam entre a sarjeta e o estrelato, feito cronista dos nossos tempos metido no cotidiano de um jornal meio mundano fundado pelo próprio pai, cuja redação foi palco de um crime passional familiar, o Shakespeare dos trópicos viveu alguns dos melhores momentos de sua carreira como repórter esportivo. Com seu jeito particular de decifrar o mundo, e sua técnica incomparável de ir além do que se vê no óbvio, Nélson Rodrigues conseguia transformar jogos comuns em narrativas épicas, dignas de um capítulo assinado por Camões. Boa parte desse legado pode ser conferido no livro “A Pátria de Chuteiras”, coletânea de crônicas publicadas em jornais cariocas entre 1950 e 1970.

Fico imaginando, se vivo estivesse, o que teria escrito hoje… Talvez abrisse sua crônica do jogo com uma de suas frases mais contundentes: “a virtude é bonita, mas exala um tédio homicida. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.” De fato, foi essa receita que fez de Rodrigo Caio, por exemplo, um bom-moço condenado pela sua sinceridade. E há de ser também por ela que Jô passará o resto de sua vida lembrado por um golpe de malandragem, uma falcatrua que não tem perdão. De artilheiro do Brasileirão, símbolo da eficiência de um Corinthians exemplar no primeiro turno, Jô passou a ser o Macunaíma de plantão, o herói sem caráter que reduz o povo brasileiro a uma metáfora preconceituosa de gente sem berço e sem moral, indecente e repugnante.

O julgamento de Rodrigo Caio e Jô passa pela relativização de nossas convicções _ e da graduação de nosso passionalismo. Pelo que se ouve nos botecos da cidade e pelo que se lê nas redes sociais, Jô perdeu a chance de mostrar grandeza de espírito e coerência com o discurso de um mês atrás. É fácil cobrar isso dele sentado no sofá, tomando uma cerveja, vendo o replay do lance por vários ângulos. Mas há de se reconhecer que não desce redondo o fato de ele se omitir da verdade, de fingir honestidade, de mascarar o que está escancarado aos olhos do mundo. Fica no ar a sensação, indigesta, incômoda, de que é a lei de Gérson que nos move. Até quando o caráter do brasileiro vai estar sob suspeita? Até quando vamos continuar fazendo futebol sem bons sentimentos? Até quando o espírito de Nélson Rodrigues apontará o dedo na nossa cara para nos lembrar que o tal complexo de vira-lata vai além de uma figura de linguagem? Até quando, enfim, vamos fazer das virtudes atributos tomados pelo tédio suicida?


Pelé acabou com a carreira de Telê, o Fio de Esperança
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Na segunda-feira, fui almoçar com velhos amigos do Diário Popular, lá da década de 90. Nelson

Traço de Batistão, o gênio

Nunes, Luis Augusto Monaco, Maurício Noriega e Marcelo Laguna. Hoje, um dia depois, fiquei pensando que todos convivemos com Telê Santana, na época dirigindo o São Paulo.

Telê era ranzinza, brigava muito com a gente. Proibia que jornalista entrasse no campo de treinamentos. Dizia – com razão – que a gente iria estragar a grama. Mas Telê também era um conversador, um contador de causos. Nada de midia training. Só bate papo

Um dia, ele me contou como a sua carreira acabou. Após levar um drible de Pelé.

Telê tinha muito orgulho de seu posicionamento tático em campo. Era um ponta-direita que ajudava muito o time, cumpria funções táticas além do drible. E dos gols. Telê marcou 165 pelo Fluminense. Ele dizia que adivinhava aonde a bola iria chegar, antes mesmo do goleiro adversário bater o tiro de meta. E contava que Mário Filho, genial escritor e jornalista carioca, havia escrito uma crônica sobre essa qualidade. No final da nossa história, deixo o texto fantástico do Mário Filho, que era irmão de Nelson Rodrigues. Senão, vocês ficam embevecidos e param de ler o meu.

Bem, no final da carreira, em 1962, já com 31 anos, Telê jogava no Guarani. E recebeu o Santos, de Pelé. No auge, com 21 anos. E Telê colocou em prática o seu denodo. Ajudou a marcar Pelé. Ficou atrás dele, pronto para imaginar o que a Fera faria.

Agora, vou colocar Telê para falar, como eu me lembro. Como nunca esquecerei.

“Estava atrás dele, esperando a boa vir. De olho, pronto para adivinhar o movimento. Minha ideia era me antecipar, dar o bote e sair jogando. Eu estava atento e ele, eu imaginei que não. A bola veio, eu dei o bote e ele, que estava me vendo de costas, não sei como, mas estava. Ele sabia o que eu ia fazer. E deu um toque por baixo da bola. Ela foi subindo, rente do meu corpo. Eu tentava fazer algum movimento, mas estava preso no chão, sem poder subir. A bola foi subindo, passou pelo meu joelho, umbigo, peito, nariz e eu via aquilo e não podia fazer nada. Passou minha cabeça, Pelé já tinha se preparado, matou no peito e saiu jogando. Eu xinguei ele de filho da puta e fiquei com vontade de aplaudir. Nessa jogada, eu achei que era o momento de parar”.

Telê foi para o Madureira e depois para o Vasco. No ano seguinte, foi para o Vasco. E parou.

Leram até aqui? Agora, vem o prêmio. Parte do texto de Mário Filho, o homem que deu a Telê o apelido de Fio de Esperança. O texto era de 1956, o auge de Telê.

Telê trouxe uma nova medida de tempo para o futebol. É, de algum modo, o ponteiro dos segundos, o que não pára. Os outros são, quando são, o ponteiro dos minutos. Há, até, os que não são ponteiros: são os cinco, os dez, os vinte, os trinta, os sessenta, os números que os ponteiros atravessam, girando. Ponteiro de segundos é Telê. E vocês, que têm relógio, vão compreender melhor por que se descobre Telê, todos os anos. Para ver o ponteiro dos segundos, a gente precisa ser um pouco médico, que todos somos, contar as pulsações.

Eu quero dizer que Telê está no jogo os noventa minutos ou mais, com os descontos. A atenção dele não se desvia da bola. Mesmo a bola caindo no fosso do Maracanã, isto é, desaparecendo da vista da gente. Telê, então, fica olhando o garoto que segura aquela espécie de apanhador de borboletas para ir buscar a bola.

Para Telê é importante. O quíper (goleiro) vai receber a bola, vai colocá-la sobre a linha da pequena área, talvez seja o quíper quem bate o tiro de meta, talvez seja o beque. Telê tem de estar preparado para receber aquela bola ou para roubá-la. Ele é um ladrão dessas bolas sem destino certo, um descuidista dentro do campo. Bola sem dono é de Telê. Quem o chama de ladrão é o Benício Ferreira Filho. E o termo é bom porque quando o quíper do outro lado, ou o beque, bate o tiro de meta, é para dá-la a um jogador do time dele e não a Telê. Mas Telê já está à espera da bola. Há jogadores que olham no momento do tiro de meta, para ver a direção da bola. Telê estava olhando antes. A bola do tiro de meta, a bola do out-side, a bola que espirra, a bola que foge, a bola que toma efeito, a bola que para, a bola que anda, a bola que salta.

Se um jogador espera um passe e não se antecipa, está sem bola, Telê apareceu, para muitos não se sabe de onde. Mas se alguém, em vez de olhar para a bola, olhar para Telê, que é quase a mesma coisa, não tem de que se espantar. Telê está sempre se colocando, mudando de posição, e de olho na bola, ela esteja perto ou longe. Mas não se olha Telê, olha-se a bola, embora se saiba que Telê está no palco, digo no campo. Mas podia dizer palco. Dão a deixa e ele aparece. Só que, no futebol, dão muito mais deixas do que no palco. É, porém, difícil ser Telê, pegar todas as deixas. Sobretudo porque não se reserva para Telê o papel principal. Ele é que toma e com a naturalidade de quem não está tomando nada. De quem está apenas representando o papel que lhe foi destinado.


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